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Alfabetizar, não é mágica. É ciência!

“Dinomir contra o coronavírus”
Caderno de situações didáticas para a Alfabetização
www.geempa.com.br

Conheça uma experiência corajosa em meio à pandemia de COVID-19.

Por Josiane Martins Soares*

Com o título “Na pandemia, alfabetização é desafio até para alunos com condições ideais de estudar à distância”, a reportagem veiculada pelo jornal O Globo, de 29 de março de 2021, aponta que aluno/as de escolas privadas, com acesso à internet e “condições adequadas de aprendizagem em casa”, e seja lá o que isso quer dizer, não conseguem aprender a ler e escrever.

Para alguns familiares entrevistados, a saída para o problema seria a reprovação dos/as filhos/as, ou seja, a retenção no 1º ano do Ensino Fundamental. Como forma de refutar a solução apresentada por essas famílias a reportagem recorre ao ponto de vista de alguns especialistas em educação, que advogam que isso não seria necessário, pois o ciclo de alfabetização (1º ao 3º ano do Ensino Fundamental), supõe que a criança vai se alfabetizar até o final do 3º ano.

Comprovadamente a ideia de ciclo na alfabetização é uma das falácias que tem levado o país aos mais pífios índices em relação à aquisição da competência de ler e escrever. O decreto nº 6.094 de 24 de abril de 2007 estabelece que os sistemas de ensino devem: alfabetizar as crianças até, no máximo, os oito anos de idade, aferindo os resultados por exame periódico específico. Concretamente sabemos que aqueles que não se alfabetizam no 1º ano, seguem para o ano seguinte com a marca de não terem logrado uma aprendizagem que seus colegas já alcançaram, ficam à margem e dificilmente conseguem avançar em sua aprendizagem. Assim, seguem não aprendendo e ao final do 3º ano sequer dominam a leitura e a escrita.

Em tempos pandêmicos, de modo geral os argumentos apresentados para a não aprendizagem dos alunos/as, por um lado, recaem sobre os ombros das famílias que não acompanham os/as filhos/as nas atividades em casa, ou nas dificuldades de acesso à internet ou ainda sobre as condições individuais de cada criança. Por outro lado, cada uma dessas razões ainda que solucionadas, não são capazes por si só, de garantir a alfabetização.

Relembro a reportagem do jornal O Globo, citado no início desse texto que mesmo alunos de escolas privadas, com “condições para o ensino à distância” não aprenderam a ler e escrever. E de fato, os sistemas escolares e as classes de alfabetização não construíram as mudanças necessárias para que pudessem enfrentar a não aprendizagem da leitura e da escrita. Sabe-se que a duras penas foi realizada uma transposição de aulas presenciais, aquela ainda que no século XXI, apresenta resquícios da educação da idade média.

Não se pode negar que o contexto da pandemia no ano de 2020, além descortinar as desigualdades sociais trouxe à tona também uma problemática histórica: a alfabetização no Brasil. Percebe-se que com relação às desigualdades de acesso à educação a necessidade de acesso à internet é a preocupação vigente e os esforços de inúmeros segmentos seguem-se para garantir esse direito aos estudantes. Porém, somente a garantia de oferta do ensino em formato on-line, remoto, ou híbrido não representa nem de longe a garantia da oportunidade de aquisição da competência de ler e escrever.

Considerar apenas a preocupação com o acesso à internet para a realização das aulas, ou ainda, priorizá-la como a única ou a mais importante dificuldade a ser enfrentada para que alunos de 1º ano aprendam a ler e escrever, é permanecer negando as profundas e necessárias modificações para enfrentar corajosamente o cerne do problema e seguir aprofundando ainda mais as desigualdades.

Secretários de Educação, especialistas das Secretarias de Educação, Direções, Coordenações e ainda diretamente, as/os professoras/es alfabetizadoras/es caso não se preocuparem com mudanças radicais no ensino da leitura e da escrita, irão produzir nos próximos anos, legiões de analfabetos e índices assustadores nas séries finais do Ensino Fundamental I.

Vale lembrar que um/a aluno/a que frequentou o 2º ano em 2020, e lá chegou sem estar alfabetizado/a, seguiu em 2021 para o 3º ano sem ler e escrever. E infelizmente não é raro encontrar alunos/as não alfabetizados/as no 4º e no 5º ano, que são aqueles/as que seguiram após o 3º ano sem lograr a leitura e a escrita.

Esse contexto é ainda mais desolador quando reconhecemos que ele não é constituído apenas por números. São crianças e pré-adolescentes que sofrem a amargura de não aprender. Frequentaram um ano inteiro, mas desgarram-se. Agora, isolam-se dos demais. Alguns falam pouco. Outros, por seus malabarismos já descobriram que, na lógica escolar, podem satisfazer o professor realizando exímias cópias, alguns até reproduzem traçados de letras perfeitas, mas são incapazes de ler ou escrever textos simples, competência de um aluno/a alfabetizado/a.

50 anos de pesquisa!

O Grupo de Estudos sobre Educação Metodologia de Pesquisa e Ação – GEEMPA, em seus 50 anos de existência dedica-se às pesquisas em alfabetização, à formação de professores e ao ensino da matemática. Inúmeros estudos em classes de alfabetização conduzidos pela pesquisadora Esther Pillar Grossi, Doutora em Psicologia da Inteligência e uma das fundadoras do grupo demonstram que é possível alfabetizar uma turma de alunos em seis meses.

O Pós-Construtivismo, definido por Grossi, a partir das elaborações de Piaget, Vygotski, Wallon, Gerárd Vergnaud, Sara Pain define a aprendizagem como um fato social, onde o papel dos outros é essencial. Nesse sentido, aprender em grupo é uma essencialidade. E esse aspecto por si só, desconfigura a cena áulica vigente até hoje nas escolas, onde os alunos sentam-se um atrás do outro, de frente para o professor. 

Em tempos de ensino remoto, a constituição de uma turma, não pode ser desconsiderada ou justificada pelo fato de não poder se organizar presencialmente. O vínculo e o afeto são fundamentais para aprender. Postar atividades em uma plataforma, não substitui os laços que estruturam as relações em uma turma de alunos e sua professora.

Para a prática geempiana, um grupo é como um corpo, onde circulam as provocações, as trocas, apoios, competições, onde cada um é importante e a presença de todos é indispensável. O grupo assim constituído: os que sabem mais que o aprendente sobre o objeto a aprender, os que sabem mais ou menos sobre o mesmo objeto e os que sabem menos que o aprendente sobre o mesmo objeto.

Para o GEEMPA, à frente de tantos anos de pesquisa em relação à formação de professores, à alfabetização e à matemática, é desolador verificar esse cenário e mais ainda os resultados de alfabetização produzidos no Brasil.

Mas, a essa altura você pode estar se perguntando: mas, então… qual é a mágica do Geempa? Não é mágica. É ciência! Ciência conduzida por uma pesquisadora brasileira, em um grupo cinquentenário, com sede na cidade de Porto Alegre, de braços com núcleos de estudos espalhados pelo território nacional e na Colômbia e que conta com uma comunidade internacional de bases sólidas construídas a partir de áreas como: a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia, a Psicanálise, a Medicina, a Pedagogia e a Didática.

Professoras do município de Antônio Prado em formação com GEEMPA.

Uma experiência corajosa em meio à pandemia do COVID-19

Desde fevereiro de 2021, o Geempa dedica-se a assessorar uma Secretaria de Educação de um município da serra gaúcha, distante 184 km da capital. O cenário é o mesmo já relatado anteriormente nessas linhas – alunos e alunas que apesar de frequentarem a escola, ainda não se alfabetizaram.

A Secretaria de Educação do município de Antônio Prado, através de uma decisão e na contramão desses índices, corajosamente assumiu o compromisso de modificar esse contexto. Preocupou-se com a aprendizagem de todos/as aqueles/as que não foram alfabetizados/as e arregaçou as mangas. Os primeiros passos foram dados, pois o fenômeno demanda urgência para reverter o sofrimento daqueles/as que não aprendem e esse é um compromisso com a dignidade humana, de que a/o professor/a não pode se furtar.

A formação acontece semanalmente. As professoras aprenderam a identificar a competência da leitura e da escrita através da aula-entrevista e estão finalizando esse trabalho com todos/as as/os alunos/as, em formato virtual, garantindo o distanciamento.

Após esse levantamento, o objetivo da segunda etapa é organizar no mês de abril, as turmas de acordo com o núcleo comum de conhecimentos: Turmas de Alfabetização e Turmas de Pós-Alfabetização.

Professora Valéria Redon jogando em grupo com sua turma de alfabetização – Londrina/PR.

Núcleo Comum de Conhecimentos

A organização das turmas em torno de um núcleo comum de conhecimentos está calcada no processo de aprendizagem e ainda na possibilidade de trocas que uma turma tem em comum.

Anne Nelly Perret-Clermont pesquisadora suíça, colaboradora de Jean Piaget foi quem identificou a influência do/a colega na construção social da inteligência. Em suas pesquisas verificou que alunos/as muito avançados/as, na troca com colegas, funcionam como o/a professor/a, agindo com uma interferência menos benéfica que a dos iguais, como assinalou Piaget.

Fundamentalmente, é nas trocas entre pares, que as/os alunos/as podem se arriscar. Quando vivenciam um obstáculo epistemológico[1], é na troca entre iguais que é possível superar. Ainda que não seja para explicar, mas para provocar, a troca entre os pares é ainda mais eficaz que o professor/a.  “Isso porque os processos de aprendizagem passam por duas fases que se alternam – uma discursiva e uma dialética”, de acordo com a terminologia de Piaget em seu livro Les formes elementaires de la dialectique. Nas fases dialéticas, os pares se ajudam mais que os desiguais, desiguais como são professor/a e aluno/a. Donde se pode inferir a centralidade do papel da organização dos/as alunos/as em pequenos grupos para a apropriação de aprendizagens (GEEMPA, 2013, p.112).

Perret- Clermont, identificou que o melhor contexto para as aprendizagens escolares é a homogeneidade de esquemas de pensamento por aqueles/as que constituem uma turma. Entenda-se por aprendizagens escolares aquelas que, por sua complexidade, requerem planejamento, sistematização e docência, porque impossíveis de se fazerem espontaneamente sem esta intencionalidade programada (GROSSI, 2012).

Finalizando

Na experiência de Antônio Prado, participam duas escolas e 15 turmas, do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Dos 128 alunos/as que frequentam as turmas do 2º ao 5º ano, avaliados até o momento, 65 não estão alfabetizados/as, o que corresponde a 51% dos/as estudantes dessas turmas. Com esse panorama, a partir do 2º ano, as turmas de alfabetização estão sendo organizadas de acordo com o núcleo comum:

  1. Alunos/as não alfabetizados/as – o que vai garantir que possam percorrer a aprendizagem da leitura com colegas.
  2. Alunos/as alfabetizados/as – que já adquiriram a competência de ler escrever um texto simples e já estruturam um conjunto significativo de elementos, em um sistema estável de relações em rede, a eles/as será garantida a possibilidade de continuarem aprendendo novos conhecimentos e poderem percorrer outros patamares que a aprendizagem da leitura e a escrita necessita avançar, com relação à Pós-Alfabetização.

Essa valorosa inciativa de uma secretaria no interior do estado constitui-se em uma verdadeira aposta na tarefa de ensinar. Sabemos que essa tarefa nem de longe constitui-se de ser vocação ou dom natural, mas congrega uma laboriosa e imprescindível construção para que possa responder a exigências próprias de seu campo, apoiada em pesquisa científica e uma base teórica consistente.

Romper com a lógica do fracasso e da reprodução sistemática de “não aprendizagem” da leitura e da escrita é possível e urgente, portanto permanece vivo o convite e a esperança para que os sistemas de ensino voltem o olhar para o nó górdio que representa a alfabetização dos estudantes brasileiros e posicionem-se com base nos resultados que as mais belas ciências do aprender nos brindam.

Notas

[1] Obstáculo epistemológico: Nas andanças do processo de alfabetização os/as alunos/as elaboram hipóteses e fazem inferências. Os momentos mais solenes e fecundos ocorrem quando eles/as se dão conta de que a hipótese então formulada não se comprova. Essa é a parte mais difícil do processo, ao mesmo tempo, a mais linda. Uma criança que pensa que se escreve uma letra para cada sílaba oral e, de repente, se flagra que não é por aí, vive uma sensação de grande fracasso, porque ninguém gosta de perder o que conquistou com esforço.

Referências

GEEMPA. Manual da Aula-Entrevista. 2ª Edição. Porto Alegre, 2015.

PERRET-CLERMONT, Anne Nelly. Desenvolvimento da inteligência e interação social. Coleção Horizontes Pedagógicos, 2ª edição. Instituto Piaget, Portugal, 1995.

Caderno Pré-Colóquio Internacional sobre a Teoria dos Campos Conceituais (no prelo).

Na pandemia alfabetização é um desafio até para alunos com condições ideais para estudar. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/na-pandemia-alfabetizacao-desafio-ate-para-alunos-com-condicoes-ideais-de-estudar-distancia-24943688


* Josiane Martins Soares é Presidente do GEEMPA. Pedagoga, Especialista em Gestão Escolar e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Maria. Integra o Grupo de Estudos sobre Educação Metodologia de Pesquisa e Ação, desde 2006, onde atua na área de formação de professoras/es.

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