Práticas pedagógicas

Fazer etnografia na pandemia: propagando caminhos possíveis via ondas sonoras

Juliane Bazzo

Originalmente publicado no Blog da Rádio Kere-kere. Versão em português de comunicação realizada em 17 de março de 2021 no Teaching and Learning Anthropology Network Webinar – Teaching and Learning Anthropology during the Pandemic: Dilemmas, Challenges and Opportunities, promovido pela European Association of Social Anthropologists (EASA).

O podcast “Fazeres etnográficos em tempos de pandemia” se configura, a um só tempo, como uma ferramenta de ensino, um esforço de pesquisa e um produto de divulgação científica em Antropologia. Esse artefato resulta de uma disciplina de mesmo nome, ministrada por mim enquanto professora visitante do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal da Grande Dourados, durante o segundo semestre do regime de educação remota emergencial de 2020.

A disciplina abraçou como tema a feitura de etnografias em tempos de isolamento social, devido à pandemia de Covid-19. A proposta residiu em debater, com as(os) discentes inscritas(os), caminhos possíveis para a continuidade de suas pesquisas de mestrado, em um contexto no qual o coronavírus coloca obstáculos às interações presenciais, tão características do trabalho de campo que subsidia a construção etnográfica em Antropologia.

O plano de aprendizagem contemplou a etnografia digital, mas procurou não situar essa modalidade como a única saída aos desafios do momento. Nesse sentido, o programa do curso reuniu alternativas adicionais de investigação, que exploram outros mediadores capazes de colaborar com o distanciamento físico entre pessoas exigido na atualidade. Entre eles, emergem as imagens, os sons, os documentos, os objetos, a literatura, como também nossas próprias casas, os trânsitos imprescindíveis pela rua para necessidades essenciais e a autoetnografia.

A fim de abordar as potencialidades dessas mediações, convidei nove antropólogas(os) que, em áudios, compartilharam com a turma dicas, conselhos, experiências e reflexões acerca de cada uma delas, com o propósito de (re)pensar e (re)direcionar etnografias nessa singular circunstância. Colaboraram nessa empreitada profissionais de três das cinco regiões do Brasil – nordeste, sudeste e sul – e também com atuação fora do país: Denise Pimenta (CIDACS/Fiocruz-BA), Debora Leitão (Université du Québec), Viviane Vedana (UFSC), Lucas Freire (PPHPBC/CPDOC/FGV-Rio), Aline Rochedo (PPGAS/UFRGS), Alessandra El Far (Unifesp), Fabiene Gama (UFRGS), Eva Scheliga (UFPR) e Fabio Mura (UFPB).

Esse conjunto de áudios, que deu forma adiante ao podcast, se dispersou ao longo do semestre letivo por WhatsApp, onde a maior parte da disciplina transcorreu on-line. Essa era a plataforma de acessibilidade mais ampla entre o alunado, confirmada por enquete antes do início do curso. A consulta prévia desejou assegurar, em especial, o direito de que as(os) discentes indígenas, cujo número é significativo na Universidade Federal da Grande Dourados, pudessem frequentar a disciplina. O estado do Mato Grosso do Sul, onde está localizada a universidade, conta com a segunda maior população de indígenas no Brasil. Como sabido, há ainda muitos e enormes débitos históricos do poder público perante a cidadania efetiva desse coletivo, o que abrange a inclusão digital irrestrita nos territórios indígenas mais distantes dos centros urbanos.        

As(os) antropólogas(os) convidadas(os) a contribuir com suas vozes na disciplina são, em maioria, autoras(es) de referências que compuseram o programa de ensino. As interfaces de pesquisa por elas e eles abordadas compartilham uma história comum de esforços para evidenciar legitimidade perante um modo original de se fazer Antropologia, pautado nos encontros presenciais e na demanda por um “outro” distante, para assegurar o estranhamento. As circunstâncias hoje vividas com a pandemia lançam ainda mais luz, portanto, a práticas etnográficas que vêm enriquecendo a Antropologia já há muito tempo e, definitivamente, não estão à margem.

Por reunir variadas frentes possíveis de etnografia, o programa do curso mobilizou uma literatura acadêmica que passa longe de ser exaustiva a cada uma delas. A ideia era que as(os) estudantes pudessem avançar, para além da disciplina, nas frentes que considerassem produtivas para suas investigações particulares. Embora entre as referências selecionadas já existisse uma quantia expressiva situada no cenário da Covid-19, uma boa parte abarcou situações de pesquisa de origem prévia a essa conjuntura. Sendo assim, as indicações de leitura procuraram funcionar como inspirações para boas discussões e reflexões a respeito de adaptações viáveis, como também de seus limites, no contexto sanitário em foco.

Ao longo das nove semanas da disciplina, portanto, as(os) discentes receberam, por meio de um grupo montado no WhatsApp, um roteiro de estudos, composto pelas leituras indicadas e por um audiocomentário da professora a respeito delas, orientada por um mapa mental do conteúdo. A isso se somavam as vivências, conselhos e reflexões gravadas pelas(os) profissionais convidadas(os), chamadas internamente ao curso de “audiodicas”. A partir disso, as(os) estudantes realizaram exercícios, de modo a experimentar as possibilidades de cada uma das alternativas de pesquisa apresentadas, conforme seus próprios interesses investigativos. A cada quinzena, aproximadamente, a turma se reunia comigo on-line, para debatermos, sob motivação de perguntas-chave elaboradas pelas(os) alunas(os), com base nas leituras e também nos exercícios realizados.

À medida que a disciplina se aproximava do fim, constatei que as “audiodicas” se mostravam tão ricas e tinham nutrido de tal modo o entusiasmo entre as(os) estudantes, que me pareceu oportuno ampliar sua circulação. Dessa forma, nasceu o podcast “Fazeres etnográficos em tempos de pandemia”, no qual as “audiodicas” das(os) antropólogas(os) convidados foram dispostas em episódios, junto da literatura trabalhada a cada semana.

Em cada episódio, as falas dessas(es) profissionais surgem apresentadas na íntegra, sem cortes ou efeitos – aquilo que possa ter faltado em tecnologia, quero argumentar, certamente terá sido compensado em pedagogia. Para fins de assegurar a acessibilidade, legendas com a transcrição dos áudios foram ativadas em todos os episódios disponíveis no YouTube. O podcast pode ser ouvido ainda em outras plataformas de streaming, como Spotify, por exemplo.   

Mais que ofertar respostas definitivas às problemáticas que envolvem a realização de etnografias no presente panorama, a disciplina que originou o podcast almejou funcionar como um laboratório de experimentações, no qual cada estudante, conforme sua realidade, se permitisse montar uma “caixa” de possibilidades de pesquisa que se revelassem instigantes para atravessar esse momento, considerando os impactos materiais e emocionais.

Como trabalho final de curso, provoquei as(os) discentes a construírem seu “plano B” de pesquisa, cujo contexto seria de continuidade da pandemia e/ou de seus efeitos. Como resultado, uma discente indígena, por exemplo, interessada em investigar o conhecimento das mulheres de sua etnia sobre remédios tradicionais, percebeu como frutíferas a etnografia de seu próprio ambiente familiar, como também a autoetnografia. Outra aluna apostou nas afinidades entre antropologia e literatura, com a proposta de estudar o atual momento político do Brasil por intermédio de narrativas fantásticas. Houve ainda quem lançasse mão da etnografia digital, de documentos, de objetos, bem como de imagens e sons existentes para problematizar temas variados, a saber: suicídio e pandemia; rituais religiosos e tradicionais; assim como situações de violação de direitos humanos.

Foi também com esse convite de experimentação que circulei o podcast a um público mais amplo via redes sociais virtuais. Surpreendeu-me o interesse em conferir os episódios não apenas por parte de acadêmicas(os), mas, sobretudo, de profissionais das Ciências Sociais atuantes fora da universidade, diante da centena de compartilhamentos que a notícia sobre o podcast obteve na plataforma LinkedIn.

Todos esses desdobramentos – de uma disciplina que acabou se tornando um podcast – me sintonizam ao alerta de Tim Ingold: no processo de superação de dicotomias ocidentais reducionistas, é preciso não mais opor o ensino e a pesquisa, como duas atribuições que a professora-pesquisadora realiza separadamente, uma em detrimento do tempo da outra1. Poderíamos pensar aqui, adicionalmente, a extensão universitária.

Na visão do autor, tais atividades configuram “práticas de educação” intrinsecamente ligadas, nas quais a docente-investigadora tem o papel de conduzir caminhos em favor da construção do conhecimento, dentro e fora da sala de aula, dentro e fora de seu campo de pesquisa mais circunscrito. Ela realiza essa tarefa em meio à vivência com suas/seus estudantes e também, acredito, no diálogo com a comunidade mais ampla, enquanto coletivos potentes de discussão e reciprocidade.

O podcast “Fazeres etnográficos em tempos de pandemia” encontra-se disponível nos canais a seguir:

Rádio Kere-Kere
Blog Primavera nos dentes
Plataforma Anchor

Notas

1 INGOLD, Tim. Anthropology and/as education. London; New York: Routledge, 2018.

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