Educação na pandemia

“Escola em quarentena”: um projeto de registro antropológico de memórias educacionais durante a pandemia da Covid-19

Juliane Bazzo
Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Programa de Pós-graduação em Antropologia (PPGAnt), Professora visitante
Kelli Schmiguel
Secretaria de Educação do Estado do Ceará (Seduc), Professora de língua portuguesa e redação; Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Mestranda em Estudos da Linguagem
Roselaine (Mana) Lucena Suarez
Cia OBaobá, Contadora de histórias e mediadora de leitura

Artigo curto originalmente publicado, em dezembro de 2020, no Dossiê Temático ‘Práticas informacionais interdisciplinares no contexto do coronavírus (Covid-19)’, organizado pela Revista A.to.Z, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

INTRODUÇÃO

A pandemia da Covid-19 repercutiu globalmente sobre todos os setores da vida neste ano de 2020 e seus integrais impactos ainda serão determinados. Algumas áreas, contudo, sentiram de modo ainda mais brusco e imediato os efeitos da ágil dispersão do novo coronavírus. Dentre elas, certamente, está a educação, que precisou suspender rapidamente, nos diversos níveis de ensino formal, as atividades presenciais, em virtude da alta probabilidade de contágio em ambientes marcados por aglomerados de pessoas. Em tempo recorde, docentes, técnicas educacionais, estudantes e suas famílias se viram, ao redor do mundo, envolvidos em novos experimentos de aprendizagem, de caráter remoto emergencial.

Diante do inesperado desse contexto, a ciência foi outro nicho instantaneamente tocado e convocado a buscar medidas de enfrentamento a uma crise multifacetada, ao mesmo tempo sanitária, geopolítica, econômica e sociológica. Desde a identificação da doença em fins de 2019 na China, mas especialmente a partir da decretação de sua natureza pandêmica pela Organização Mundial de Saúde (OMS) nos primeiros meses do ano seguinte, o volume de pesquisas, nas mais diversas frentes, evoluiu avassaladoramente em todo o planeta (World Health Organization, 2020).

Para tanto, mostrou-se necessário repensar o próprio modo de conduzir essas investigações, de maneira a assegurar, o mais rigorosamente possível, o distanciamento social exigido perante uma mazela infecciosa ainda sem remédio ou vacina desenvolvidos. Nesse decurso, migraram em peso para plataformas digitais os estudos das ciências naturais e humanas que envolvem pessoas como sujeitos de pesquisa, sob uma miríade de temas. E, entre seus instrumentos de pesquisa mais recorrentes, observou-se a difusão, nas redes sociais virtuais, de questionários fechados ou abertos, gerenciados sob apoio de ferramentas como o Google Forms.

Originado em abril de 2020, o projeto “Escola em quarentena: um registro antropológico de memórias educacionais” situa-se como fruto desse movimento massivo, embora sua inspiração metodológica advenha do modo etnográfico de produzir conhecimento, típico da Antropologia enquanto campo do saber. Uma etnografia, para se constituir, pode contemplar a aplicação de perguntas como aquelas reunidas em questionários, mas não se restringe a isso: inclui também a observação sistemática, a escuta atenta, bem como interlocuções mais fluidas e contingentes com os sujeitos de pesquisa, estejam off-line ou on-line (Miller, 2020).

O “Escola em quarentena” almeja reunir, em um espaço compartilhado, relatos que não cessam de se avolumar na internet, assinados por docentes, técnicas educacionais, estudantes e seus familiares, acerca de dilemas, adaptações e aspirações, na tarefa de ensinar e aprender nesse momento que foge completamente ao ordinário. No que tange à realidade do Brasil, na qual se baseia o projeto, tais falas tomam forma a partir de contextos de vida bastante diversificados. Essas vozes ecoam redes de ensino públicas e privadas, de diferentes regiões geográficas, que retratam um país plural, mas também muito desigual socioeconomicamente, perante a empreitada de lidar com a educação remota emergencial.

Mesmo em meio a um dia a dia turbulento, os sujeitos das comunidades escolares têm conseguido, portanto, encontrar tempo para ofertar minuciosas impressões, que certamente merecem ser preservadas e potencializadas enquanto memória e conhecimento. Logo, o objetivo do “Escola em quarentena” reside em justamente auxiliar o encontro dessas narrativas num mesmo lugar, para refletir sobre os desafios do presente e, também, angariar elementos para imaginar coletivamente um futuro pós-pandemia à educação brasileira.

Para isso, o projeto delimitou, como seu espaço de funcionamento, um grupo de aprendizado social na rede Facebook, o qual conta atualmente com cinco centenas de membros. A iniciativa nasce vinculada ao blog de divulgação científica Primavera nos dentes – Ensaios sobre a escola e a realidade brasileira, gerenciado de modo independente pela primeira autora deste paper. O blog tem por missão visibilizar e enriquecer debates em Antropologia da Educação, enquanto um subcampo disciplinar em expansão (Bazzo, 2020a).

Figura 1. Página principal do projeto “Escola em quarentena”.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2020).


O “Escola em quarentena”, por conseguinte, valoriza a interdisciplinaridade entre a Educação e a Antropologia, intrínseca às suas origens, como também ao background acadêmico-profissional de sua coordenação tripartite, realizada pelas autoras do presente texto. Além disso, têm-se em tela um projeto que lança mão das redes sociais virtuais para realizar a gestão do conhecimento e a aprendizagem coletiva. Por fim, trata-se de um esforço de promoção da ciência aberta e cidadã, ao partilhar dados qualitativos de pesquisa no compasso em que estes vão sendo gerados, via engajamento das e dos agentes das comunidades escolares no projeto.

Ao longo deste paper, dar-se-á privilégio à marcação feminina de gênero, que guarda maior consonância com o público abarcado pela iniciativa aqui descrita, como adiante se explicará.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E RESULTADOS

Conforme mencionado, a operacionalização metodológica do projeto “Escola em quarentena” seguiu um caminho díspar em relação a um volume considerável de pesquisas on-line que, no cenário de dispersão do novo coronavírus, vêm se pautando pela aplicação de questionários estruturados. A iniciativa de viés etnográfico em vitrine aqui, por sua vez, replicou com adaptações o modelo do estudo “Relatos do cotidiano durante a pandemia”, coordenado pelos sociólogos Paulo Gajanigo (Universidade Federal Fluminense – UFF) e Rogério Souza (Universidade Candido Mendes – UCAM).

Sob o propósito de construir um arquivo da vida ordinária durante a quarentena e, assim, auxiliar na perenização da memória social brasileira desse momento, a investigação da referida dupla se desenrola em um grupo de aprendizado social na rede Facebook. Esse ambiente estrutura-se por unidades de trabalho, que acomodam especialmente depoimentos sobre o dia a dia, mas também descrições de sonhos, expressões artísticas e um inventário de transformações na mobília doméstica, todos conteúdos compartilhados pelos participantes do grupo, desde março de 2020, quando foi decretada a emergência sanitária (Gajanigo & Souza, 2020).

O “Escola em quarentena”, igualmente, organiza-se até o momento a partir de três unidades de trabalho, adequadas aos seus propósitos específicos: (a) “Narrativas originais”, que agrega relatos enviados exclusivamente ao grupo por suas membras a respeito do cotidiano educacional diante da pandemia; (b) “Narrativas viralizadas”, que abrange conteúdos com esse mesmo perfil em alta circulação nas redes sociais virtuais e, portanto, de interesse das participantes; (c) “Narrativas provocadas”, que contemplam enquetes dirigidas em torno de assuntos com potência de debate, afeitos ao escopo do projeto.

Qualquer pessoa com uma conta no Facebook pode demandar acesso ao grupo, que se dá sob aceite da moderação. Para participar, as membras devem acatar um conjunto condensado de regras éticas. Estas incluem o compartilhamento de narrativas mediante aprovação da administração do grupo, como também o aceite tácito de sua publicidade, tanto nesse ambiente, quanto em outros desdobramentos que o projeto venha a ter, estejam os relatos em forma escrita, visual ou audiovisual. O formato das narrativas é totalmente livre, mas se solicita a indicação de alguns dados sobre cada autora, como a cidade onde vive, a função desempenhada em sua comunidade escolar e a informação sobre vínculo a uma rede de ensino pública ou privada. Todavia, caso manifestado o desejo, são aceitos também relatos sob anonimato.

À época da escrita deste paper, o projeto reunia 50 narrativas originais, 65 narrativas viralizadas e quatro narrativas provocadas. A princípio, a moderação do grupo optou por compartilhar tais relatos com comentários desativados, orientada pela aspiração primeira de promover a circulação dessas vozes. Entretanto, com a inauguração da unidade de narrativas provocadas, passou-se a abrir a possibilidade de comentários das membras nas enquetes, a fim de enriquecer a discussão proposta. Em seguida, tanto narrativas originais, quanto viralizadas, passaram a ser selecionadas para permanecer com comentários abertos, a fim de fomentar debates guiados anunciados em posts específicos pela administração do grupo, no esforço de tornar a troca de ideias a mais produtiva possível. Atesta-se a eficácia desse procedimento pela ausência de qualquer episódio de desacato no interior do ambiente virtual em questão.

Quanto às temáticas abarcadas pelas narrativas, pode-se sintetizar que contemplam uma série de dificuldades de adaptação ao ensino remoto, tanto de estudantes e seus familiares, como de docentes e técnicas, seja no que diz respeito ao manejo da tecnologia, à reformulação de conteúdos a distância, à criação de vínculos afetivos via plataformas ou ainda ao equilíbrio com as rotinas domésticas e também profissionais dos adultos. Não obstante, chegam também relatos que revelam como tais personagens estão procurando lidar ou contornar esses obstáculos no dia a dia, com maior ou menor sucesso, por se tratar de um cenário excepcional. As figuras a seguir reúnem exemplos relativos a essas questões.

Figura 2. Exemplos de ‘Narrativas originais’.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2020).
Figura 3. Exemplos de ‘Narrativas viralizadas’.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2020).
Figura 4. Exemplos de ‘Narrativas provocadas’.
Fonte: Elaborado pelas autoras (2020).

A fim de sistematizar as narrativas em trânsito, houve o delineamento de tópicos classificatórios, ordenados pelos papéis das participantes em suas comunidades escolares. Com isso, constata-se que a maior parte das narrativas possui, até o momento, a assinatura de mães com filhos em escolas públicas (três dezenas dos relatos reunidos). Em seguida, aparecem as professoras de escolas públicas (duas dezenas) e as mães com crianças no ensino privado (uma dezena). Percebe-se, assim, uma característica distintiva do conjunto de participantes: as mulheres constituem 80% desse universo. Quanto à localização geográfica, informada pelo gerenciamento de informações do próprio Facebook, cerca de 50% das membras do grupo estão no Sul do Brasil; adiante, vem a região Sudeste, com aproximadamente 10%.

Tais dados expõem desigualdades de gênero, de classe e, muito provavelmente, de raça, que se mostram deveras profundas na realidade brasileira e, não raro, operam de modo interseccional (Crenshaw, 2002; Souza, 2009). A esmagadora participação feminina no projeto dá comprovação de que, em uma sociedade como a nossa, de origens escravocratas e afinada ao patriarcado ocidental, o cuidado de crianças recai maciça e iniquamente sobre as mulheres, principalmente às mais empobrecidas e, entre estas, às mulheres negras (Bazzo, 2020b). Por seu turno, o fato de a maior parte das membras residir nas regiões Sul e Sudeste, as duas mais ricas do país, evidencia disparidades socioeconômicas na geografia, as quais se espelham em índices de inclusão digital, considerados nesse domínio tanto o acesso pleno às tecnologias da informação e comunicação, quanto o necessário letramento
para delas usufruir (Spyer, 2017).

Dessa maneira, embora seja emblemático, no “Escola em quarentena”, o volume de narrativas oriundas da rede pública de ensino, tem-se claro que uma considerável fatia de vivências de segmentos mais desfavorecidos da população brasileira, especialmente das regiões geográficas menos abonadas, não está sendo devidamente captada pela iniciativa. Essa é, sem dúvida, uma reverberação de um problema grave nesse momento de educação remota emergencial: diante da suspensão das atividades presenciais, muitas famílias se encontram em severas dificuldades para continuar nutrindo vínculos com suas comunidades escolares, as quais constituem elos fundamentais na corrente de proteção social (Parreiras & Macedo, 2020).

Uma forma de contornar tal lacuna tem sido a indicação de conteúdos a esse respeito no grupo, na unidade de narrativas viralizadas. Um exemplo residiu na chamada para que as membras conhecessem o Blog Lugar de criança é…?. Nesse espaço, vêm sendo reunidos relatos de crianças e familiares em situação de vulnerabilidade social, assim como de trabalhadores de assistência nesse campo, especialmente residentes na região costeira paranaense, acerca do período de aulas remotas com a pandemia. A coleta dos dados difundidos pelo blog viabiliza-se por redes tecidas, anteriormente à emergência sanitária, pelo projeto “Territórios urbanos e oferta de programações esportivas”, vinculado ao Campus Litoral da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e encabeçado por Eduardo Thomassim e Marisete Hoffmann, docentes da instituição.

CONCLUSÕES

O “Escola em quarentena” vem sendo objeto de atenção em entrevistas na mídia, artigos de divulgação científica e comunicações em eventos (Bazzo, 2020c, 2020d; Bazzo, Schmiguel & Suarez, 2020). No grupo, há um tópico classificatório chamado “Repercussões do projeto”, em que a equipe está reunindo tais reverberações.

A iniciativa deve continuar sua atividade enquanto perdurar a educação remota emergencial. Para além disso, espera-se que possa alcançar desdobramentos que superem as fronteiras virtuais. Nesse sentido, a equipe responsável vem refletindo sobre quais seriam os melhores meios de democratizar esse aprendizado coletivo na forma de conhecimento educacional. O certo é que frentes de ensino, pesquisa e extensão serão exploradas, nas quais todas as administradoras do projeto estão mais ou menos diretamente envolvidas.

Contudo, independentemente de quaisquer desdobramentos, considera-se que o projeto desde agora já presta um serviço à memória. Se refletimos com autores como Pollak (1989), sabemos que toda e qualquer memória não é dada, mas sim elaborada por um intenso jogo social de forças, capaz de projetar certas lembranças em detrimento de outras, com efeitos muito concretos sobre a realidade e o destino das pessoas. O “Escola em quarentena” delimita, assim, um mosaico de percepções dos agentes das comunidades escolares, conferindo uma espécie de perenidade, dentre outras possíveis, aos seus anseios, afetos e devires, perante a pandemia como um evento certamente divisor de águas neste século.

REFERÊNCIAS

BAZZO, J. Escola em quarentena: novos desafios, velhos dilemas. Confinaria: Etnografias em tempos de pandemia. Disponível em: <https://confinaria.hypotheses.org>. Acesso em: 27 abr. 2020a.

BAZZO, J. Não tenho filhos. Posso ser aliada da maternidade? Portal Catarinas: jornalismo com perspectiva de gênero. Disponível em: <https://catarinas.info/>. Acesso em: 10 maio 2020b.

BAZZO, J. O amanhã no “chão da escola”: lidando com afetos. Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: <https://diplomatique.org.br/>. Acesso 6 jul. 2020c.

BAZZO, J. Escola em quarentena: um registro antropológico de memórias educacionais. VII Cirkula do PPGA/UFPE – O fazer antropológico em tempos de pandemia. Disponível em: <https://youtu.be/2oDdPCnycyA?list=PLobe-LHB675-rntnjUaTuKaRzNBY07e3U>. Acesso em: 16 out. 2020d.

BAZZO, J.; SCHMIGUEL, K.; SUAREZ, M. L. Projeto Escola em Quarentena. UFPR TV. Disponível em: <https://www.facebook.com/ufprtvoficial/videos>. Acesso em: 29 maio 2020.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171-188, 2002.

GAJANIGO, P.; SOUZA, R. Registros do cotidiano durante a pandemia de Covid-19: um relato de pesquisa. Planície Científica, v. 2, n. 1, p. 10-22, jan./jul. 2020.

MILLER, D. Como conduzir uma etnografia durante o isolamento social. Tradução de C. Balsa e J. Bazzo. Blog do Sociofilo. Disponível em: <https://blogdosociofilo.com>. Acesso em: 23 maio 2020.

PARREIRAS, C.; MACEDO, R. M. Desigualdades digitais e educação: breves inquietações pandêmicas. Boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus, n. 36. Disponível em: <http://anpocs.org/>. Acesso em: 8 maio 2020.

POLLAK, M. Memória, esquecimento e silêncio. Estudos Históricos, v. 2, n. 3, p. 3- 15, 1989.

SOUZA, J. (org.). Ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2009.

SPYER, J. Social media in emergent Brazil. Londres: UCLPress, 2017.

WHO – WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global research on coronavirus disease (Covid-19). Disponível em: <https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/global-research-on-novel-coronavirus-2019-ncov>. Acesso em: 19 out. 2020.

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