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A criança e o antropólogo entre duas pandemias

Por Everson Fernandes Pereira*

“A persistência da memória” (1931), reprodução de tela de Salvador Dalí.

Nesta crônica antropológica, compartilhada com o Primavera nos dentes, o cientista social Everson Fernandes Pereira resgata memórias do seu cotidiano infantil nos anos 90, acerca do assombro diante da emergência da Aids, para refletir sobre como essas vivências afetivas o mobilizam agora enquanto investigador pesquisando a Covid-19. Como as crianças e também os adolescentes de hoje se lembrarão desta atual pandemia? Que tipo de agência exercerão perante tais memórias? São perguntas reflexivas fundamentais abertas nestas linhas. As respostas a tais interpelações, certamente, ressoarão sobre o “chão da escola”, quando for possível voltar a ele. Eis o texto:

***

Quando, em janeiro, começamos a ver notícias vindas da China sobre diversos casos de uma “pneumonia misteriosa”, provavelmente pouquíssimos de nós imaginávamos estar vivendo tudo isso que estamos testemunhando. Para alguns privilegiados o suficiente para não serem expostos ao vírus, somamos seis meses de isolamento social. Em alguns casos, como o meu, não apenas sem ver amigos, mas também a algumas centenas de quilômetros de distância da família.

Enquanto os surtos, com uma localização bastante circunscrita, começaram a ganhar status de epidemia e, depois, pandemia, porque os limites geopolíticos não são o suficiente para interromper o curso de quem passa por frestas, também começamos a aprender um pouco sobre aquela misteriosa doença. Descobrimos que se tratava, de fato, de um vírus – um coronavírus. Demos um nome, classificamos, quantificamos, criamos códigos, protocolos, taxas, gráficos, projeções e subjetivações.

Conforme produzimos informações, também fomos definindo maneiras de evitar o contágio com aquelas informações que estavam à disposição no momento. Duas maneiras particularmente críticas, porque mexeram com nossos costumes de maneira mais dramática, foram o isolamento social e a proibição de velar nossos entes queridos. Essas duas medidas, em especial, reacenderam memórias da infância no convívio com outra pandemia, a da Aids.

No início da década de 1990, vivendo numa cidade relativamente pequena, a Aids ainda causava silêncio (ainda que hoje ela ainda cause, mas em bem menor grau). Nesse período, duas pessoas do meu convívio familiar cotidiano perderam um bebê por “tuberculose”. Na época, descobriram estar vivendo com HIV e Aids. O que a gente sabia naquele momento: isolamento e evitar contato. As pessoas que faziam parte do meu convívio já não podiam mais continuar fazendo. Havia rumores de não poder sentar no mesmo lugar enquanto estivesse “quente” por risco de contágio, sem contar o uso compartilhado de talheres que foi banido, mesmo que o processo de higienização fosse feito com o mais alto grau de cuidado – havia uma marcação nos talheres que eram deles, na fase inicial quando ainda era possível receber alguma visita deles.

Conforme o quadro de saúde deles foi piorando, as restrições foram aumentando. Eles passaram a ficar isolados. Os contatos, como beijo no rosto e abraços, foram proibidos. Até o aperto de mão era dado com alguma distância corporal ampliada. Lembro de maneira bastante nítida de uma visita que fizemos e, constrangidos, recusamos um convite para entrar na casa. À época, eu estava com uns sete ou oito anos, e levei quase duas décadas, quando passei a ter contato com a Antropologia, para compreender o quanto deve ter sido difícil ser isolado dessa forma. Ser excluído do convívio, do afeto. Ser posto em isolamento social dessa forma. E foram os relatos e notícias sobre as pessoas doentes com Covid-19 que me trouxeram essa memória. Cada relato de pessoa doente, isolada, às vezes sem cuidadores, trazia de volta a década de 1990.

A proibição de velar e enterrar os queridos foi outra determinação que frequentemente me faz lembrar de como foi conviver com a Aids – e tudo o que ela trazia, principalmente os estigmas – quando criança. Lembro que essas pessoas do meu convívio morreram poucos meses depois de descobrirem o diagnóstico. Eles eram um casal, foram internados na mesma época e morreram com exatos sete dias de diferença: ele morreu num sábado, no sábado seguinte ela morreu. Tem algo de mágico, no sentido metafísico, nas narrativas que sempre ouvi sobre o momento da morte de ambos. Contaram-me a vida inteira que no sábado em que ele morreu, ela, sem saber, disse que estaria fora do hospital em sete dias.

Ainda que não houvesse a proibição de realizar velórios, havia rumores de que o caixão precisaria ser lacrado para evitar contaminação. Lembro melhor do velório dele. Acho que foi a primeira pessoa morta que vi. O algodão no nariz. Lembro do caixão lacrado porque lembro de olhar através da pequena abertura de vidro que deixava à vista apenas o rosto do morto. Lembro que, apesar de lacrado, era bom manter distância do caixão e desnecessário ficar horas dentro da igreja, no mesmo ambiente, respirando aquele ar.

Hoje, antropólogo e acompanhando e vivendo a pandemia de Covid-19, consigo também dar sentido a muitas das memórias sobre a Aids. Ainda que eu ache que talvez as duas pandemias tenham mais diferenças do que semelhanças, elas com certeza trazem à tona questões sociais que se interconectam. Além disso, apesar de ter vivido também a pandemia de H1N1 e ter melhor memória sobre esse período, é pela pandemia de Aids que minhas memórias são interpeladas.

* Everson Fernandes Pereira, Bacharel em Ciências Sociais, Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Realiza pesquisas nos campos da Antropologia da saúde e doenças raras e atualmente pesquisa também a pandemia de Covid-19.

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