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O Coronavírus é um problema educacional?

charge alefFonte: assisramalho.com.br

Por Alef Lima*

Não é muito confortável escrever sobre educação (em um sentido lato) com escolas paralisadas por conta da atual epidemia, da mesma forma que as iniciativas civis, os cursinhos populares, os coletivos e toda a sorte de organizações que tentam trabalhar a escolarização, por fora do meio-fio das políticas públicas educacionais. Trabalho há algum tempo com programas de extensão e coletivos políticos destinados à acessibilização e inserção de Pessoas Trans** no Ensino Superior, que nesse exato momento estão de quarentena e agora tentam estratégias de Educação à Distância, verificam disponibilidade de internet com discentes e buscam produzir exercícios didáticos. Tudo às pressas, temendo o cancelamento dos vestibulares e até mesmo do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Será um semestre perdido? Eles e elas, se perguntam, todos são professores/as voluntários/as/es. No grupo do WhatsApp, criado especialmente para contornar a crise, acompanho suas dinâmicas de esperança e lamentação. Existe uma somatória de questões e desafios. Por mais que quisesse me alongar nesse ponto, atendo-me ao educacional como um problema formal de conclusão de cursos, integralização curricular e mesmo de número de aulas. Não é exatamente desse aspecto que trato nesse texto.

A reflexão que proponho se estrutura além dessa prerrogativa, que é importante. Porém, se tornou evidente demais (e tais discussões serão feitas com melhor qualidade em outros momentos e lugares). O que me chamou atenção – como uma problemática educacional no ‘clima epidêmico do Coronavírus’ é uma ausência (proposital ou inconsequente) da educação científica nos meios populares, nos seus hábitos, na confiabilidade depositada nas autoridades políticas e sanitárias que tentam achatar a curva de contaminação. Não escrevo isso de maneira a desprezar a carga histórica dos amplos setores populacionais que foram sistematicamente excluídos do acesso aos sistemas de ensino nacionais (em todos os níveis). Vide um conjunto de referências bibliográficas extenso que atesta essa exclusão no âmbito do ‘ensino das massas’. Mas, o quadro mudou pelo menos entre os anos de 1990 e 2010 com a implementação e a inclusão de políticas de acesso ao Ensino Fundamental e Médio, construção de escolas e uma agenda governamental de FHC à Dilma Rousseff que em tese ampliaram a participação das populações negras, indígenas, jovens e adultos dentro dos quadros escolares (Krawczyk, 2011).

Em um momento como esse a educação científica preconizada na base curricular do ensino público brasileiro se torna fundamental, ela ganha uma força de práxis. Minha pergunta, talvez ingênua demais, é sobre de que modo os conhecimentos básicos e considerados essenciais pelos formuladores, foram percebidos, compreendidos, subjetivados (para usar uma palavra elegante) por esses sujeitos? Entender o que é um vírus ou quais suas formas de propagação me parecem ser justamente conhecimentos vitais para se evitar pânicos morais e sociais desnecessários. Compreender que os processos de transmissão são mais eficazes em ambientes de aglomeração ajuda a tomar uma espécie de consciência sobre o valor de uma quarentena tão bem defendida pelos maiores veículos de comunicação. Porém, não é o que eu vi. Trago um exemplo dos meus “diários do isolamento social”:

Fortaleza, sábado, 28 de março de 2020

Penso que as pessoas não se deram conta, pelo menos não completamente, do significado de uma pandemia e das políticas de isolamento. Hoje pela manhã, quando deixava meus gatos passearem pela pequena sacada da minha casa, escutei uma vizinha conversando com duas transeuntes, bem embaixo de onde eu me encontrava. Atento e disfarçando meu interesse, puxei uma cadeira e passei a ouvir com mais dedicação suas reclamações e percepções sobre a quarentena.

Uma das transeuntes que conversava com minha vizinha era uma mulher jovem, loira e grávida. Ela se mostrava exaltada com o isolamento e diz que resolveu sair de casa para não enlouquecer. Ela vestia uma blusa amarela que não conseguia chegar ao final por conta da barriga, provavelmente já estava no mês final de gestação. Entre suas falas a mais enfática era que quem fosse pegar o vírus pegaria de qualquer jeito. Sua aposta era na ineficácia da quarentena. Minha vizinha, uma mulher de cinquenta anos, de cabelos negros e rosto de olhos miúdos, confirmava a percepção da grávida. Relembrando que apenas idosos eram grupo de risco.

Depois, a segunda transeunte, uma mulher encorpada de quadris largos, também loira, aparentemente irmã da primeira, falava que a epidemia foi obra de Deus, por conta dos desfiles das escolas de samba no Rio e em São Paulo. Todas concordaram, pareciam devotadas, minha vizinha é católica, sei disso por que ela obrigava a filha a ir na Crisma todo o domingo de manhã.

As transeuntes seguem caminho, minha vizinha entra para dentro, não sem antes olhar para cima e me cumprimentar. Eu aceno, talvez por uma educação provinciana do que por um gesto sincero.

Como encontrar no meio dessas percepções a rotinização do conhecimento científico que em tese deveria já fazer parte no modo como as sociedades “contemporâneas” funcionam? Não saberia afirmar com certeza se ao perspectivar justamente a incidência do conhecimento escolarizado nos momentos de crise sanitária haveria de existir uma espécie de dinâmica de cuidado e de proteção que fosse inteligível a todos. Mas, a pergunta persiste, como aprendemos ciência na escola? De que forma saber que o sabão consegue “romper a película” da água a partir de uma reação molecular e tal fenômeno permite a remoção de sujidades e inclusive possibilita transpassar a membrana de gordura de alguns vírus (como o da Covid-19), ajuda? A questão me parece complexa demais para sintetizar em algumas linhas. O que ocorre, em um frame generalista e, sem uma reflexão incisiva, é o esvaziamento da educação escolar como uma educação vivida – ou uma aprendizagem significativa. Dando margem, nesse vazio, para o incremento de formas aparentemente irracionais e fatalistas de lidar com a realidade, é um ponto complicado, eu admito.

A pandemia exige que as pessoas reavivem os conhecimentos menosprezados nas aulas de química e biologia, ela solicita emergencialmente que reflitam racionalmente sobre suas ações em termos de uma sobrevivência compartilhada. Talvez, seja o caso de abrir os cadernos velhos das aulas perdidas, de ouvir ao fundo de nossas mentes a voz do professor ensinando o que ocorre quando se junta detergente na água ou daquela professora de biologia da oitava série articulando o gesto correto para tossir ou espirrar em público e rever sua explicação em “preto e branco” sentada em cima da mesa esbranquiçada, afirmando que as gotículas de saliva são veículos de transmissão poderosos. Enquanto não houver um movimento sincero de reativar os conhecimentos escolares e a potencialidade da aprendizagem na escola, para usar as ideias de Isabelle Stengers (2017), não se pode saber os efeitos de uma educação pública (e privada) precarizada estrutural e sentimentalmente nas mentes e nos corações de milhares de brasileiros.

Referências

STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Cadernos de Leitura, Belo Horizonte, n. 62, 2017. Disponível em: https://chaodafeira.com/wp-content/uploads/2017/05/caderno-62-reativar-ok.pdf. Acesso em 29/03/2020.

KRAWCZYK, Nora. Reflexões sobre os desafios do ensino médio no Brasil hoje. Cadernos de Pesquisa, Rio de Janeiro, v. 41, n. 144, p. 732-769, 2011.

* Alef Lima é licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Ceará (UFC), além de mestre e doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Realiza pesquisa nos campos da antropologia da educação e de aprendizagem com ênfase nos processos de escolarização.

** O termo ‘trans’ refere-se a pessoas que não se identificam com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer.

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