Educação na pandemia

Escola em quarentena: novos desafios, velhos dilemas

Publicado originalmente em 27 de abril de 2020 pelo blog CONFINARIA – Etnografias em Tempos de Pandemia, do CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia (Portugal).

Por Juliane Bazzo, professora substituta no Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná, Brasil.

No início deste 2020, lancei o blog de divulgação científica independente Primavera nos dentes, que entrecruza debates antropológicos sobre a escola e a realidade brasileira.

Entre as medidas imediatas de prevenção ao coronavírus, esteve a suspensão das atividades de instituições de ensino. E, uma vez constatada a necessidade de isolamento social de maior prazo, uma onda de desavenças entre famílias e escolas passou a povoar a internet no Brasil, acerca da conveniência ou não das aulas remotas.

Esse cenário controverso me atraiu e foi assim que passei a fazer no blog uma curadoria de conteúdo na interface coronavírus & educação. Tenho buscado difundir informação qualificada e a utilizado também para manter ativo o faro etnográfico.

Uma pandemia surge como algo completamente novo para a maioria da população. Paradoxalmente, é também mais do mesmo exacerbado, o melhor e o pior. E com as instituições de ensino, não parece ser diferente.

Gabriel Noel(1) conta que o “sistema de expectativas recíprocas” entre escolas e famílias inicia sua desestabilização na modernidade ocidental no pós-segunda guerra, com a democratização educacional, cujo componente de diversidade passa a atritar com um arranjo originalmente elitista de aprendizagem. De lá pra cá, projetos de estado de bem-estar se deterioraram, modos de governo neoliberais avançaram e a troca de acusações se aprofundou.

Mães e pais afirmam existir uma ‘crise da escola’, enquanto esta diz haver uma ‘crise da família’. Ambas se reconhecem como imprescindíveis na formação de crianças e jovens, contudo, desautorizam-se mutuamente nesse processo. No fim das contas, como ensina Max Gluckman(2), há uma “crise moral”: dois grupos em franca divergência sobre princípios de ação e nenhuma solução consensual mais límpida no horizonte.

A pandemia, desse modo, não coloca uma crise educacional exatamente nova, mas indica amplificar a já existente. Uma mãe disse num artigo a propósito do momento: “A escola finge que está cumprindo seu papel e os alunos fingem que estão aprendendo. Uma hipocrisia à distância”(3). Um pai lhe respondeu: “As dificuldades são imensas, mas nenhum professor deixou de lado a preocupação com a qualidade do ensino. Comparar o antes com o agora me parece muita hipocrisia. O mundo não está igual!”(4). Nesse confronto, uma mãe e um pai de classes médias, em casas equipadas com computadores on-line.

Nas redes públicas de ensino brasileiras, há também iniciativas de transmissão de aulas, inclusive por canais de televisão, para contornar a não universalidade da internet. Mas, assim como entre os casos de coronavírus, há os estudantes subnotificados, daqueles cujo paradeiro não se sabe ao certo com as escolas fechadas.

“Liguei pra minha diretora pedindo a lista de telefones dos meus alunos de quarto ano. A maioria não tem ou não atende”, me contou uma professora municipal, de mãos atadas para fazer seu acompanhamento, diante da ausência de uma rede de apoio forte do Estado, o ator que não aparece na “crise moral”, mas está a movê-la determinantemente. Em tal cenário, escola e família sequer se enfrentam, já que não mais conseguem se comunicar. Nesse silêncio, a crueza hiperbolizada da desigualdade.

Curitiba, Paraná, Brasil, 22 de abril de 2020.

(1) NOEL, Gabriel. La conflictividad cotidiana en el escenario escolar: una perspectiva etnográfica. San Martín: UNSAM EDITA, 2009.
(2) GLUCKMAN, Max. Moral crises: magical and secular solutions. Hau: Journal of Ethnographic Theory, v. 4, n. 2, p. 369-405, 2014 [1965].
(3) Cf. https://tinyurl.com/y8fsefb2.
(4) Cf. https://tinyurl.com/ydfvqc2q.

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