Feminismos na contemporaneidade

O movimento #Elenão, as eleições presidenciais no Brasil e o dia seguinte

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Escrito em Dezembro de 2018 e publicado originalmente na data de 24 de agosto de 2019, em inglês, por The Advocate

Juliane Bazzo
Fulbright Alumni – Pesquisadora visitante na City University of New York – CUNY (The Graduate Center/Queens College) entre o outono de 2016 e a primavera de 2017

Escrevo estas linhas não apenas como investigadora externa de fatos, mas também como testemunha enredada nos acontecimentos. Busco colocar em prática o ensinamento da antropóloga indiana Veena Das, para quem testemunhar é um ato potente, capaz de ir além do relato de um drama particular e evidenciar mazelas engendradas no tecido social como um todo. Mais que isso, segundo ela, testemunhar nos ajuda a remover escombros para tornar a viver cotidianamente num ambiente em que relações de sociabilidade entre concidadãos foram violentamente danificadas.

Durante a campanha eleitoral à Casa Branca em 2016, eu me encontrava residindo nos Estados Unidos, para a um intercâmbio doutoral que realizava na CUNY como pesquisadora visitante. Quando deixei meu país, o Brasil, para embarcar nessa jornada por um ano acadêmico, não imaginava que a corrida presidencial norte-americana se tornaria elemento fundamental na investigação que conduzia naquele período.

Eu vinha estudando, desde 2014, as múltiplas agências adquiridas pelo conceito de bullying no contexto brasileiro ao longo dos anos 2000, pesquisa esta que veio a se tornar minha tese de Ph.D. em Antropologia Social. Em outras palavras, interessava-me problematizar o trajeto de existência dessa ideia que, nascida como um conceito científico na região escandinava, havia ganho a boca do povo em meu país, em usos plurais e controversos. De construto acadêmico, o bullying acabou por se transformar num ‘fenômeno’ e também num ‘problema’ a ser resolvido. Nos Estados Unidos, esse conceito também tinha vivido uma vertiginosa popularização e eu planejava conhecer mais de perto pesquisas, políticas e programas antibullying nesse país, como forma de iluminar minhas reflexões sobre a realidade brasileira.

Algo inusitado, entretanto, acabou ocorrendo durante a campanha eleitoral norte-americana de 2016, do ponto de vista de meus interesses de pesquisa: a ideia de bullying ganhou especial projeção em meio à opinião pública naquele momento, uma vez utilizada para ler elementos do discurso do então candidato à presidência Donald Trump. Isso porque as falas do republicano, com recorrência, mobilizavam ofensas misóginas, algumas especialmente endereçadas à sua oponente democrata Hillary Clinton. Também continham ataques à legitimidade da cidadania de latinos e islâmicos residentes no país, além de terem contemplado a menção desabonadora a pessoas com deficiência.

A despeito da virulência desses posicionamentos, ao menos em Nova York, eu sentia imperar um sentimento de impossibilidade da vitória de Trump, a quem parecia faltar toda e qualquer plausibilidade para ocupar o posto máximo do poder executivo. Quando os resultados eleitorais atestaram a vitória do republicano, veio o assombro. Havia se confirmado o paradoxo que os sociólogos estadunidenses Charles Derber e Yale R. Magrass se dedicam a pensar em seu sugestivo livro intitulado Bully Nation: how the American establishment creates a bullying society (University Press of Kansas, 2016). Os Estados Unidos, país que se coloca hoje como uma potência em pesquisas, políticas e programas antibullying tinha elevado à presidência um típico “big bully”.

Atônita com o resultado eleitoral, parti no dia seguinte para minhas atividades ordinárias no Queens College. Mas a atmosfera lá era extraordinária, de profunda consternação. Nessa data, assisti no campus a um workshop sobre a importância de ações individuais em prol da equidade racial e da justiça social, ministrado pela Dra. Cathy L. Royal, uma voz do feminismo negro nos universos acadêmicos e empresarial. Ela não pôde começar o workshop sem falar sobre o desfecho eleitoral, assunto que mobilizava todos os estudantes presentes no evento. Muitos tinham os olhos avermelhados pelo choro recente. Então, recordo-me, a Dra. Royal iniciou com algo assim: “Esta não é a primeira vez que esse país será dirigido por conservadores. Na verdade, isso ocorreu em grande parte da nossa história. Por isso, hoje não vou chorar: vou levantar a cabeça e seguir pensando, atuando e incomodando”. Vieram então muitas palmas e punhos em riste.

O chamado à resistência da Dra. Royal não demorou a se materializar em uma série de ações no próprio campus, como também em meio à cidade de Nova York como um todo, com o estilo visionário que lhe é típico. Apareceram por toda parte debates públicos, intervenções artísticas, manifestações de rua, além de medidas oficiais antidiscriminatórias, em favor da proteção de cidadãos que haviam sido objeto de hostilidade durante a campanha de Trump. O auge dessas mobilizações, contudo, viria logo após a posse do republicano, com a Marcha das Mulheres. Com seus pussy hats, elas tomaram as ruas de diversas cidades dos Estados Unidos, para bradar um sonoro não ao sexismo de Trump e ao retrocesso em direitos já adquiridos, como os reprodutivos, por exemplo.

As marchas replicaram-se por outras cidades do mundo, mas no Brasil, segundo uma das revistas progressistas do país, a Carta Capital, a adesão das mulheres foi classificada, à época, como “tímida”. Ao ler essa notícia em terras estrangeiras, compreendi perfeitamente esse posicionamento. Sem dúvida, eu me sentia solidária à causa das mulheres estadunidenses, diante da ameaça que significavam os impropérios de Trump e, uma vez próxima delas geograficamente, juntei-me aos seus protestos. Ao mesmo tempo, as manifestações agitavam em mim a urgente e necessária crítica ao imperialismo de países desenvolvidos como os Estados Unidos e suas mazelas historicamente trazidas à vida das mulheres do Sul Global, do qual eu, como brasileira, faço parte.

Nesse sentido, também compactuava com os questionamentos que as feministas interseccionais estadunidenses logo passaram a fazer à Marcha. Num pertinente artigo publicado na UU World’ Magazine um ano após as mobilizações, a jornalista Marchaé Grair assinalava, certeiramente, que mulheres à frente de movimentos como o Black Lives Matter, além de mulheres indocumentadas, lésbicas e transgêneras já estavam nas ruas em protesto antes da Marcha contra Trump e que assim continuavam. Grair se perguntava o quanto as mulheres brancas encabeçadoras da Marcha estavam dispostas a engrossar os protestos das mulheres negras, imigrantes e LGBTs nos Estados Unidos. E eu, mulher do Terceiro Mundo, também me fazia interpelações dessa natureza, refletindo acerca das relações de poder Norte-Sul.

Ao vivenciar a Marcha das Mulheres nos Estados Unidos, portanto, meus afetos se dirigiam com toda força ao Brasil que, naquele momento, já estava politicamente despedaçado. A tímida repercussão da Marcha em meu país explicava-se nos enormes dilemas internos que as mulheres brasileiras experimentavam. No dia 31 de agosto de 2016, exatamente quando embarquei para meu estágio doutoral na CUNY, Dilma Rousseff – a primeira mulher democraticamente eleita presidente no Brasil, membro do Partido dos Trabalhadores – teve seu impeachment confirmado, num movimento político que os intelectuais brasileiros mais respeitados classificaram como um golpe jurídico-parlamentar reacionário, apoiado por classes médias conservadoras da população.

Quando retornei ao Brasil, em 01 de junho de 2017, encontrei outro país, com um governo ilegítimo e autoritário. “Qual direito você perdeu hoje?”, interrogava um movimento independente que, por plataformas virtuais, procurava tornar públicos diariamente os disparates do desgoverno à frente do poder executivo brasileiro. Eram medidas que corrompiam conquistas em educação, trabalho, assistência social, entre outras da maior importância, especialmente aos segmentos populacionais mais vulneráveis social e economicamente. A esperança de quem resistia a esse quadro residia em novas eleições presidenciais no ano de 2018. Mas algo completamente fora de nossa imaginação democrática estava por vir.

Dada a largada eleitoral no Brasil, havia um candidato que se dizia abertamente admirador de Donald Trump e, de fato, em diversas características com ele se parecia. Jair Bolsonaro, militar da reserva, desde os anos 80 no mundo da política, não conquistou projeção pública com seu pífio desempenho parlamentar. O que lhe tornou famoso foram justamente suas colocações misóginas, homofóbicas e racistas, ao estilo Trump.

“O erro da ditadura [militar no Brasil] foi torturar e não matar”. “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que morra num acidente”. “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida”. “Não te estupro porque você não merece.” “Eu não corro esse risco, meus filhos foram muito bem-educados”. Todas essas são falas de Bolsonaro enquanto homem público. A penúltima ele dirigiu a uma colega deputada. A última versa sobre um eventual envolvimento amoroso de sua prole com mulheres negras.

São frases chocantes, mas tão estapafúrdias que, até certa altura, ninguém sensato no Brasil acreditava que Bolsonaro pudesse conquistar o eleitorado e se sair vencedor – exatamente o mesmo sentimento que existia em muitos estadunidenses quanto à Trump nas eleições de 2016. A popularidade de Bolsonaro, entretanto, cresceu e acendeu o alerta vermelho das mulheres brasileiras, que compunham o maior contingente de rejeição a ele. Dessa insatisfação, nasceu o grupo no Facebook batizado de ‘Mulheres Unidas contra Bolsonaro’ que, em poucos dias no ar, alcançou milhares de membras.

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Esses milhares se transportaram para as ruas das mais diversas cidades do país em 29 de setembro de 2018, com o grito de guerra ‘Ele não!’, que já era a hashtag carro-chefe do grupo no Facebook. Nesse dia, juntei-me à marcha realizada na cidade de Curitiba, Estado do Paraná, no sul do Brasil, ao lado das minhas amigas e também das mães das minhas amigas. Viam-se no protesto mulheres de todas as idades, de todas as cores. Abria-se espaço para a passagem de mulheres cadeirantes. Estavam presentes representantes dos movimentos negro, LGBT, sindical, estudantil, dos trabalhadores rurais. Bandeiras de todas as minorias políticas reunidas em torno de um mesmo propósito: tornar presidente do Brasil outro candidato que não fosse Bolsonaro, uma vez que, claramente, ele colocava em risco nossa jovem e suada democracia. Foi algo inédito no país que, infelizmente, encontrou real visibilidade apenas pela imprensa alternativa brasileira. A despeito do boicote da mídia tradicional, a força das mulheres brasileiras, latino-americanas, tornou-se notícia no mundo.

Após isso, a militância feminina seguiu firme por todo o país e se intensificou quando Bolsonaro conseguiu votos o suficiente para seguir ao segundo turno das eleições. Ele havia conquistado esse lugar sem absolutamente nenhum programa de governo: apenas lançou mão de seu discurso de ódio, para com isso prometer que resgataria a ordem militar e a moral cristã. Um receituário simplório, vendido por uma avalanche de fake news que, infelizmente, capturaram muitas pessoas descontentes com as atuais condições de vida no Brasil (algo semelhante também percebido nos Estados Unidos em relação à Trump e seu eleitorado). Diante dessa falácia, o cotidiano de muitas mulheres como eu mergulhou por completo na campanha política neste outubro de 2018. Militamos incessantemente pela democracia, nas redes sociais, no boca a boca, no corpo a corpo.

Tudo era vivamente político naquele momento. Um dia antes do segundo turno das eleições, o rock star inglês Roger Waters, um dos fundadores da renomada banda Pink Floyd esteve em minha cidade para um concerto. Com a turnê Us+Them, ele já havia passado por outras cidades brasileiras e, ao apresentar sua já tradicional mensagem antifascista e antissistema, vinha sendo ovacionado por uma parte do público e vaiado por outra. Isso porque, ao projetar uma lista com nomes de governantes neofascistas em emergência no mundo, Waters incluiu Jair Bolsonaro, junto de homens como Donald Trump. Os eleitores de Bolsonaro se disseram frustrados com o cantor: afirmavam que estavam no concerto para ouvir música, não para falar de política. Uma visão lamentavelmente equivocada sobre a obra de Waters que, como de praxe, prosseguiu com seu ativismo, sem se intimidar com as reações negativas de parte do público.

O show de Waters em minha cidade tinha um caráter especial: aconteceria no sábado de véspera das eleições. Por conta disso, o cantor tinha sido avisado pelas autoridades de que, pela lei brasileira, não poderia mencionar em arena pública, após as dez horas da noite, o nome de quaisquer um dos candidatos em disputa. Os fãs estavam ansiosos para saber o que Waters faria no palco diante disso. Naquele dia, ir ao concerto era como estar nas ruas em protesto. Com o show já em curso, pouco antes das dez horas da noite, o cantor exibiu num enorme telão o seguinte chamado, em português: “Esta é a nossa última chance de resistir ao fascismo antes de domingo. Ele Não!”. Parte do estádio de futebol lotado engrossou o grito, porém, outra boa parte vaiou. Senti vergonha de meus compatriotas perante o ilustre visitante. Senti também um calafrio, talvez um anúncio de que quase 80% dos habitantes de minha cidade viriam a dar seu voto a Bolsonaro.

Logo após incitar o ‘Ele não!’, Waters finalizou no telão: “São 10 horas. Obedeçam a Lei”. A mensagem era, sem dúvida, uma ironia, porque nenhuma lei conseguiria frear o poder de protesto da grande obra artística de Waters. Incrivelmente (ou não), as vaias foram inexistentes quando o cantor metralhou em críticas o Governo Trump, ao executar canções do consagrado álbum Animals. “Trump é um porco”, dizia um cartaz que Waters carregou de uma ponta a outra do palco.

Isso se juntou à denúncia de uma série de frases odiosas ditas por Trump, que apareceram no telão e em muito lembravam aquelas comuns a Bolsonaro. Em meio à plateia, sobrevoava um enorme porco inflável, que dizia: “Seja humano”. Quem entendeu, aplaudiu de pé. Quem entendeu também lamentou profundamente a vitória de Bolsonaro no dia seguinte. Diante do resultado, lembrei-me da tristeza dos estudantes no Queens College em seguida à eleição de Trump. Assim como eles, eu, minhas amigas e meus amigos choramos, dominados por enorme tristeza e temor pelo futuro de nosso país.

As similaridades entre os discursos de ódio e as táticas despóticas de Trump e Bolsonaro, certamente, não são uma coincidência. Vários intelectuais de enorme respeito – Noam Chomsky nos Estados Unidos, Christian Laval na França, Jessé Souza e Vladimir Safatle no Brasil, para citar apenas uns poucos nomes – já apontaram que tais elementos são parte de transformações de um neoliberalismo global, que desde os anos 80 vem desmontando estruturas de bem-estar social, em favor da liberalização de mercados. Trata-se, segundo esses intelectuais, de um cenário que demonstra a força de intervenção neoliberal, mas também sua fraqueza, na medida em que, para se sustentar, esse modo de governo socialmente insustentável necessita de doses cada vez maiores de autoritarismo. E, talvez, entender essa fraqueza signifique nossa maior possibilidade de resiliência.

O Dr. Simon Springer, professor na Universidade de Victoria, no Canadá, publicou em 2016 um provocativo artigo chamado “Foda-se o neoliberalismo” (ACME: An International Journal for Critical Geographies, v. 15, n. 2). “Nossa comunidade, nossa cooperação e cuidado uns com os outros são repugnantes ao neoliberalismo. Ele odeia aquilo que celebramos. Portanto, quando dissermos ‘foda-se o neoliberalismo’, que isso represente mais do que palavras”, convoca Springer. É hora, remete ele, de esforços por um mundo novo na “carapaça do velho”. Tenho pensado sobre isso: em como manter a resistência e a criatividade em meio a relações sociais esgarçadas. A misoginia, o racismo, a homofobia presentes nos discursos de Bolsonaro autorizaram pessoas a fazer o mesmo por todos os cantos do país e levaram muitas outras a calar, de modo cúmplice. Muitas dessas pessoas são familiares, amigos, colegas de trabalho, lideranças e, claro, muitas delas votaram em Bolsonaro. A pergunta a latejar a cabeça é: como puderam?

Diante do espanto e da frustração com o desenrolar desses acontecimentos, estes últimos dias deste turbulento ano de 2018, que antecedem a posse do novo presidente, têm me feito recordar o que ensina o antropólogo francês David Le Breton sobre silenciar e caminhar como formas de resistência política. Para ele, tanto um ato quanto o outro nos ajudam a salvaguardar nossa dimensão interior em momentos de tormenta externa. Ambos auxiliam sobremaneira na expansão de nossa consciência, para acessarmos aquilo que ainda nos é desconhecido e conseguirmos prefigurar o novo.

O silenciamento e a caminhada vêm me conduzido à leitura solitária cotidiana em espaços públicos. Trata-se de um hábito que hoje destoa da rotina de boa parte dos transeuntes brasileiros, quase sempre imersos nos ruídos de seus dispositivos eletrônicos, num país onde os índices de leitura da população são historicamente muito baixos. Essa postura à moda antiga advém da minha crença irrevogável no poder dos livros: não é à toa que muitos deles são perseguidos em governos antidemocráticos. Com um livro em punho como forma de protesto, muitos como eu foram às urnas em outubro passado registrar seu voto contra Bolsonaro e sua campanha militarizada (eu levei comigo ‘Mulheres, raça e classe’, de Angela Davis). Por ora, fazendo perguntas e procurando respostas diante desse resultado eleitoral amargo, consigo verbalizar aqui apenas um profundo desejo para o futuro: continuar lendo livros – em público – sem precisar escondê-los.

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